Monhés, Baneanes, Chinas e Afro-maometanos Colonialismo e racismo em Lourenço Marques, Moçambique, 1890-1940




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Valdemir ZAMPARONI, Lusotopie 2000 : 191-222

Monhés, Baneanes, Chinas
e Afro-maometanos


Colonialismo e racismo em Lourenço Marques, Moçambique, 1890-1940*1


E
ste artigo pretende acompanhar um momento específico da história social de Moçambique, através do estudo das relações mantidas entre as comunidades de origem asiática de Lourenço Marques, com o Estado colonial e com os colonos brancos, apontando como reagiram a estas ações, quais as iniciativas que tomaram, bem como se relacionaram entre si e com as comunidades de negros e dos mulatos. Restrinjo meu período aos cinqüenta anos compreendidos entre 1890 e 1940, pois foi neste período que foram estabelecidas e solidificadas as bases do regime colonial em Moçambi­que, cujas práticas sociais persistiram até a década de 1960, quando eclodiu a luta armada anticolonial. Restrinjo também, grosso modo, à região de Lourenço Marques pois, embora tais comunidades estivessem presentes em toda a então Colônia, foi na região sul, em torno da Capital, que os conflitos de ordem racial ficaram mais evidentes dado tanto à maior presença do Estado colonial quanto a de colonos brancos.

As práticas segregadoras levadas a cabo em Lourenço Marques eram correntes também entre as colônias vizinhas, principalmente na vizinha região que se tornaria a África do Sul. A constante edição de leis cerceadoras da população africana e asiática em Lourenço Marques indicam, por um lado, o quanto as leis anteriores eram burladas e, por outro, o quanto a cidade branca, “ civilizada ”, temia algo que ela própria construíra e exigia : um exército de trabalhadores, baratos e disponíveis. O comportamento da população branca era marcado pela contradição : ao mesmo tempo em que demandava crescentemente por uma força de trabalho barata, temia convi­ver com esta população de valores culturais diferentes, com este outro, a quem considerava inferior. Esta inferioridade do outro profundamente intro­jetada na alma dos colonos, havia sido construída ao longo dos séculos, desde os primeiros contatos e, nas últimas décadas do século xix, parecia estar cientificamente comprovada2. A descoberta ou a criação do outro implica necessariamente a descoberta e a criação de si próprio e esta imagem desvalorizada do outro consistia em retirar-lhe qualquer legitimidade, forta­lecendo, em contrapartida, as representações de superioridade que tinham de si mesmo os brancos dominadores.


Os “ fanáticos do Profeta ” e os “ seguidores de Budha ”


Em Lourenço Marques, além dos africanos, uma das mais segregadas comunidades era a dos monhés. Não conheço uma etimologia claramente estabelecida para o termo, entretanto, o Padre Daniel da Cruz, associa-o a “ muenhe, proprietário, patrão, senhor ”3. Apesar desta definição, este epíteto trazia, e traz ainda hoje, uma certa carga depreciativa e era utilizado, popularmente, para designar os várias grupos culturais de origem indiana, exceto os goeses cristãos que procuravam se comportar como europeus.
O termo englobava tanto os baneanes, hinduístas, originários majorita­riamente do Guzarate, quanto os mouros, seguidores do islã, quer fossem eles omanitas ou originários da Índia sob domínio britânico4. Na documentação da administração portuguesa o termo monhé não é corrente e, por vezes, é feita a distinção, mas, em geral, todos os indianos são classificados como asiáticos, fazendo com que, hoje, nem sempre possamos distinguir com o

desejado rigor, tais categorias socio-racias. De qualquer modo, vamos nos aventurar por este caminho.

A presença de tal comunidade no sul de Moçambique deu-se por duas vias : a primeira como uma extensão, para sul, dos interesses mercantis estabelecidos na costa norte desde há séculos, e a segunda, e numericamente mais importante, está associada à articulação da região sul à economia das colônias britânicas e boers vizinhas5. A partir de 1860, milhares de trabalha­dores (coolies) foram recrutados mais ou menos compulsoriamente na Índia, para servirem nas plantações de cana do Natal, província também sob domínio britânico. Findo os contratos, poucos voltaram para o território de origem, tornando-se criados domésticos, comerciários ou empregando-se nos caminhos de ferro e obras públicas. Na leva dos coolies, vieram
também emigrantes livres, geralmente comerciantes muçulmanos, que disseminaram-se pelas demais províncias, que viriam a formar a União Sul Africana, e passaram a servir não só à comunidades de contratados, mas acabaram por concorrer, no comércio retalhista, com os comerciantes ingleses e judeus. Esta conjuntura levou, a partir de 1895, à edição de sucessiva legislação restritiva à presença indiana, particularmente no Transvaal, o que, certamente, contribuiu para uma maior transferência destes para terras moçambicanas6. Embora no território sob controle portu­guês não fosse menor o preconceito, a lei não era tão restritiva. O censo realizado em 1894 já aponta a existência de 245 indianos 23,14 % da população (“ civilizada ”) total ______ dos quais 151 eram muçulmanos e 59 hinduístas7. A partir da década de dez, embora seu peso proporcional em relação à população total tenha diminuído, a comunidade cresceu em números absolutos : em 1912, Lourenço Marques contava com 848 indi­víduos indo-britânicos e em 1928, este número ascendeu a 1 974 pessoas8.

Em Lourenço Marques, a hierarquização consoante a raça e a cor se traduzia numa separação territorial dos corpos, criando, assim, as condições e atitudes de limpeza para construir um mundo no qual todas as coisas, criaturas e corpos, estariam em seu próprio lugar9. Embora se tratasse de duas comunidades distintas, hinduístas e maometanos, encontravam-se cir­cunscritos à Rua da Gávea e nas travessas da Palmeira, da Porta, da Linha, da Catembe, da Laranjeira e da Fonte, na Baixa da cidade, onde, em 1894, residiam 189, ou 77,13 % deles10. Os demais residiam no Bairro Central, no chamado Bairro Indígena e no Maxaquene-Ponta Vermelha. Os outros três bairros da cidade não tinham nenhum habitante de origem indiana11. O crescimento da cidade planejada, a partir da virada do século, rumo às terras altas do planalto, praticamente criou três espaços urbanos distintos espe­cializados : a cidade baixa, a cidade alta e os subúrbios e tal divisão se acentuou com o aumento da migração e a maior presença de mulheres brancas12. A Baixa tornou-se o espaço do trabalho e dos negócios ; era um espaço público, masculino, que no fin de tarde e às noites transfigurava-se em espaço de lazer e prazer para brancos. Os subúrbios eram o território negro e a cidade alta passou a ser o espaço privilegiado para moradia dos brancos pois, na linguagem da época, era mais salubre e higiênica do que a Baixa, onde a urbe nascera. Os monhés, da rua da Gávea e travessas, entre­tanto, não se deixaram dobrar por esta pressão urbanizadora, que se fazia em nome da modernidade, e continuaram a resistir, até recentemente, à separação entre trabalho e moradia, tida como uma das características da cidade moderna, continuando a residir nos fundos das casas de comércio.

É na rua da Gávea que se encontra também a velha mesquita que, embora pequena, nos remete ainda hoje a um clima oriental. Apesar das reformas urbanas que descaracterizaram o trecho da Baixa onde o velho bairro tinha sido erguido por “ baneanes e mouros de Diu ”, a área foi assim descrita por um cronista :

“ Paira no ambiente um cheiro doce e forte a especiaria, dos cozinhados do Oriente que se preparam nos telheiros dos quintais acanhados. As travessas e a rua são estreitas e debruadas de estreitíssimos passeios, como em Diu. Muitos prédios são ainda primitivos, dum só piso com cimalha, paredes grossas de pedra, janelas estreitas com taipais antigos e cadeados da Índia, portas grossas com ferrolhos enormes, frestas altas gradadas da rua para os quartos escuros. Os muros dos saguões são todos altos, com pequenas portas para os pátios estreitos onde, por vezes, se abrem poços fundos, antigos. Alcandoram-se, entre os muros, escadinhas, cubículos anexos, terraços e varandins, por entre papaeiras e plantas aromáticas de jardim, que os orientais cultivam sempre. Mas já não há palmeiras compondo os ambientes frescos, onde era calma a existência secular em negócio para a rua na sala de entrada e vida para o pátio nos quartos de trás, com a mercadoria por entre a família, e a forrar as prateleiras da loja ”13.

Pelas ruas da Baixa era possível cruzar com algum “ abastado mercador de fez vermelho, gravata, jóias, anéis, sobrecasaca, com as pernas envoltas num pano alvo, tufado, posto com voltas caprichosas em torno e por entre as pernas, calçando chinelas a bater, sandálias ou sapatos, porém sem meias ”, ou um outro de “ fralda comprida por fora das calças, a camisa sem colarinho fechada ao pescoço por um botão de ouro, "cofió" de cor e desenhos lavrados consoante a casta e a profissão ” e, mais raro, mas não impossível, era encontrar um “ velho magro e ascético passar envolto em fantasma num pano, como lençol enrolado ”14. Todas estas formas de vestir, por mais elegantes que hoje nos parecem ser, causavam estranhamento, desdém e mesmo repulsa por parte dos colonos brancos, ainda que mais pobremente trajados.

Se o território constituído pela Rua da Gávea e arredores, era mais um gueto conseguido que imposto e cuja “ divisória assentava na religião, que diferençava os sistemas de pensar e de viver ”15, não é menos verdade que tal população, exatamente porque sua cultura destoava da cultura européia dominante, fora sempre vista com restrições, discriminada em vários momentos, sofrendo perseguições devido à sua forte presença no comércio e só não foi expulsa justamente porque tal atividade a tornava interessante sob o ponto de vista fiscal16. Antônio Ennes, nos relatórios sobre a sua experiên­cia como Comissário Régio de Moçambique, afirma que entre os comer­ciantes europeus era corrente a opinião de que uma das principais causas do atraso de Moçambique era a invasão da Província pelos asiáticos, “ densos e vorazes como os gafanhotos ”, mas mais danosos que estes pois nem serviam, como a praga, para “ adubar os solo que devastam ”. Sua narração a respeito destes asiáticos é uma seqüência de enunciados preconceituosos17.

Começa por descrever o que acontece a bordo dos navios que os trazem : vem empilhados nos convés junto com pandeiros de cabo e capoeiras de criação, associando-os à balbúrdia, à música alucinada e exótica e, particularmente, aos animais com os quais convivem. Sua alimentação seria parca e frugal, não mais que um “ farnel de arroz cozido com drogas picantes ”. É curioso que as famosas especiarias orientais, cuja cobiça movera a “ gloriosa ” expansão lusitana tão apreciada pela geração de Ennes, transformam-se em “ drogas ” quando se trata de depreciar outrem. Julgava que presença destes asiáticos não era agradável nem aos olhos nem ao olfato ; que eram refratários a assimilar os valores europeus e o maior indicativo disto era o fato de que não se conseguia nem mesmo persuadi-los a usarem calças. Andavam com “ nuas pernas felpudas, surdindo das amplas dobras de roupagem que algum dia foram brancas, que no litoral ou no sertão arrastam açodadamente chinelas de formas indefinidas nas passadas de todos os comércios, de todas as industrias, de todos os misteres, e dizem que de todas as rapinagens mansas ”, não podendo, portanto, se contar com eles para servirem de elementos civilizadores18.


“ Monhés de origem europeia ” (Cruz 1910 : 302)


Para ele os asiáticos desfrutavam de privilégios, em relação ao europeus, pois por terem nascido à margem de pântanos, sob os trópicos, suportavam bem o clima colonial. Além disso, suas crenças religiosas, os “ usos pátrios ” e a avareza, criavam entre eles um escudo contra a intemperança, fatal aos europeus. Estes seriam os motivos de seu sucesso comercial. Ennes reconhece que o asiático não se intimidava em meter-se pelo sertão, com alguns fardos de fazenda, andando a pé, dormindo no sereno e comendo o que o “ mato lhes oferece ou o que sobeja ao negro ”, instalava-se em palhotas abrasadas pelo sol e perpassadas pela umidade ; vivia rondado pela “ quizumba, envenenado pelos pântanos vizinhos, cercado por semi-selvagens, que não raro o roubam e o matam ”. Em resumo, submetiam-se a situações que não seriam suportadas pelos europeus, acostumados a uma vida confortável e farta. Estes, ironiza Ennes, exigiriam “ machila, carrega­dores, lataria, um fardo de quinino, vinho para o jantar e para o almoço e uma libra por dia ; e apesar destes regalos e prémios veria muitos deles voltarem roubados e corridos pelos negros, ou declarando esmorecidos que não podiam passar sem… pão abiscoitado ! ”. Mas faltava ao europeu, sobretudo, a tenacidade, a mansidão com que o asiático aturava as afrontas dos indígenas, a “ ductilidade com que se lhe amolda aos costumes, a sagacidade com que se lhes insinua no ânimo, as gírias com que o explora sem o afugentar, com que o rouba deixando-o contente ”19. Só aparente­mente Ennes mostra-se simpático aos asiáticos.

Esta avareza, que lhes seria peculiar, permitia-lhes viver do nada, vender e trabalhar mais barato do que ninguém ; juntar míseros bagos de arroz e transformá-los em capitais, depois multiplicados pela usura20. Não gas­tavam, não tinham hábito de consumir e, imbuídos do desejo de acumular, não se importavam em viver de forma paupérrima. Segundo Ennes, se alguns usavam cabaia de seda e coletes bordados a ouro era, certamente, porque esses “ vistosos jaezes ” passavam de geração a geração ; o máximo de extravagância que se permitiam era “ banquetearem-se com vegetais e queimarem panchões nos dias das festividades rituais ”. As suas lojas eram descritas como “ uma baiúca ” onde habitavam com os caixeiros e, “ na companhia de quatro peçonhentos répteis [que] geram o calor e a imundície, répteis que o dono da casa não mata por devoção, e quando muito põe delicadamente fora da porta, para que busquem hospedagem noutra parte. Os empregados ganham caril e pouco mais ”21. A acumulação era o que os movia para fora da Índia e uma vez “ recheado o mealheiro ”, passavam adiante o negócio ou nomeavam um agente após o que embrulhavam a mobília numa esteira e faziam o caminho de volta “ estiraçados sobre os escotilhões de mistura com os macacos, e comendo talvez os restos de arroz cozido com que vinte anos antes emigraram da pátria da fome ”. Não há dúvida de que para Ennes os asiáticos seriam promíscuos, vivendo amon­toados, no meio de empregados e mercadorias e, mais uma vez estão associados, no imaginário do narrador, ao bestiário e, se vivem com os animais, por ilação, a estes se assemelham em hábitos e comportamentos. Entretanto, apesar de nutrir profundo desprezo pelos asiáticos, Ennes, como administrador que era, foi forçado a reconhecer que se tratava de uma população pacífica, obediente, apolítica, que não mendigava, quase ausente dos registros policiais, que nada pedia ao Estado e que muito contribuía para a arrecadação alfandegária. Reconhece ainda que estas “ chusmas ” tinham aberto os mercados do interior e que, embora daninhas, eram imprescindíveis para a manutenção e expansão deste comércio, não sendo tão nefastos a ponto de se querer expulsá-los da colônia. E conclui, numa aparente contradição com as descrições anteriores : “ menos me escandaliza a sua sobriedade sórdida do que a intemperança de altivos colonos de raças que se reputam privilegiadas ”22. Apesar das ponderações de Antônio Ennes, uma sucessiva legislação tentou restringir a movimentação e a presença de asiáticos em Moçambique. Em janeiro de 1899, os asiáticos foram proibidos de entrar em Lourenço Marques e depois, em 1907, na altura do surto de peste que atingia a cidade, sua entrada foi regulada, exigindo-lhes o pagamento de 30$00 réis para que pudessem desembarcar, ainda que o seu destino fosse a África do Sul. Em julho de 1912, o governo provincial voltou a adotar medidas de controle à entrada e saída dos asiáticos e criou, em outubro deste mesmo ano, um Regulamento de Polícia de Entrada de Asiá­ticos, que por conter formas explícitas de discriminação, foi anulado por ordem do Ministro da Colónias temeroso de reações diplomáticas por parte da Inglaterra, uma vez que muitos dos atingidos eram súditos britânicos. Um ano depois foi editado um “ Regulamento para a polícia e fiscalização da entrada de asiáticos e equiparados nos territórios da Província de Moçambique sob a directa administração do Estado ”, onde o racismo era menos explícito em sua redação, mas que mantinha o espírito do anterior, dificultando ao máximo a entrada, movimentação e instalação de asiáticos em terras controladas pelo Estado, excluindo as terras sob administração da Companhia de Moçambique e contornando, assim, em parte os protestos das autoridades inglesas23.

Cerca de vinte anos depois, o ranço racista estava mais arraigado e sem as preocupações de estadista que moviam Ennes, o Pe. Daniel da Cruz nos dá uma síntese daquilo que era a opinião corrente no meio colonial de Moçambique, acerca daqueles a quem denomina de os “ fanáticos do Profeta ”. Descreve o aspecto físico nos moldes e com os termos correntes no meio científico de então : “ altura regular, rosto comprido, nariz aquilino, traços correctos, côr morena, cabello d’azeviche, membros delgados e flexíveis ”, a seguir descreve as roupas que geralmente usam, e que lhes parecem estranhas principalmente pelo detalhe de que tais pessoas nunca usam meias. Descrito o tipo físico, de acordo com os procedimentos da Antro­pologia de então, passa a descrever o meio em que vivem tais pessoas : “ suas habitações, pequeneníssimas e immundas, sem ar nem luz, verdadeiras luras repelentes onde habitam grande número de pessoas, são sempre nos sítios mais escusos, mais retirados e esquecidos, o que tudo fazem por uma sórdida economia. Juntamente com infinita variedade de mercadorias amontôam os móveis domésticos, os catres, e durante a noite é no pavi­mento, nos balcões, por cima das mercadorias que dormem patrões e empre­gados ”24. Descritos o tipo e o meio, o padre Cruz passa à descrição dos elementos que considerava característicos do caráter e do comportamento : “ de gênio bastante servil e adulador, em serviço duma cupidez insaciável e mesquinha, são duma psychologia notavelmente acanhada e dum moral muito degenerado. Astuto e de grande esperteza para o pequeno commér­cio, desenvolve uma extraordinária habilidade na escamoteação de quantas pequenas moedas sonha no bolso dos indígenas ”25.

Feita a caracterização de uma parte dos asiáticos, o padre Cruz passa a falar dos baneanes, a quem considera uma “ raça muito inferior à prece­dente ” pois “ são geralmente baixos de estatura, cabeça pequena, formas arredondadas, linhas pouco definidas, de olhos pequenos, pretos e vivos, nariz pequeno, um pouco achatado e sem expressão, côr muito trigueira e baça, e aspecto lânguido e efeminado ”. Feita a descrição física, que nada fica a dever à prática científica da fisiognomonia então em voga, afirma que as suas habitações são ainda mais “ hediondas que as dos monhés, […] sem ar, nem luz, nem limpeza de casta nenhuma, verdadeiros focos de insalubri­dade e immundície ”. Assim vivendo, seriam de uma “ sordidez sem igual ” e seguiam as doutrinas de “ Budha [que] tanto lhes prohibe matar a vacca, objecto dum culto particular, como o microscópico parasita que lhes atormenta o corpo ”. Mais uma vez, feita a descrição do tipo e de seu ambiente, passou o padre a tecer comentários sobre o caráter dos baneanes que considera de “ espírito concentrado, como quem procura desde já identificar-se com Nirvana, são duma psychologia muito acanhada e dum senso moral inferior ao dos monhés ”. Seriam indolentes e apáticos e, talvez por isso, também muito pacíficos e sofredores tronando-se, por isso, “ não raras vezes victimas de doestos e opressões da parte de colonos deshumanos e cruéis ”26.





“ Monhés d’origem asiática ” (Cruz 1910 : 304)


Para dar credibilidade às suas opiniões o padre Cruz incluiu as fotos acima. A fotografia, como sabemos hoje, não passa de uma imagem construída acerca da realidade mas, em princípios do século, era tida como a própria realidade. Sua inclusão numa obra não como finalidade fortalecer os argumentos e limitar ao máximo a margem para dúvidas ou questiona­mentos provenientes do leitor. Era um poderoso instrumento de conven­cimento e mesmo que o Padre Cruz não o explicite, cumprem o papel de, associadas aos seus considerandos, expressar em que conta tais comuni­dades eram tidas entre os colonos brancos. Os adjetivos empregados por Antônio Ennes e pelo Padre Cruz não deixam dúvidas : trata-se, no imagi­nário colonial, de seres sórdidos, astutos, degenerados, cúpidos, mes­quinhos, ávidos, insaciáveis, lânguidos, efeminados, repelentes e, para piorar, como animais, viviam em luras acanhadas, hediondas, imundas e insalubres. Se um poeta, jornalista e alto funcionário do governo colonial e um padre, ambos educados e ilustrados, assim os retrata, não seria de supor que a maioria dos colonos, broncos e analfabetos, achassem legítimo assacar-lhes insultos e imputar-lhes responsabilidades múltiplas ? Não faltaram ocasiões em que isto se expressou, como veremos mais adiante.

Outra minoria também marginalizada, e que se mantinha fechada, era a dos chinas. Não se sabe exatamente quando os primeiros chineses chegaram a Moçambique. A comunidade chinesa estava concentrada na cidade da Beira e em Lourenço Marques onde, o censo de 1894, informa que viviam 36 adultos homens, uma mulher e duas crianças chinesas representando 3,68 % da população (“ civilizada ”) total___. Em 1912, com o crescimento urbano, cidade e subúrbios contavam com 550 homens e 23 mulheres chineses. A partir de então, a comunidade diminuiu, proporcionalmente à população total, e seu número absoluto oscilou bastante : em 1928, Lourenço Marques tinha 314 chineses, em 1935 este número voltou a subir para 483 e em 1940 chegou a 570 indivíduos27. Em 1894, excetuando-se uma pessoa, todos moravam ou na Baixa (23 deles) ou no Bairro Central (15 deles) ; dedicavam-se principalmente aos trabalhos artesanais especializados e ao comércio : 22 eram carpinteiros, 10 comerciantes, 2 eram agricultores, 2 ferreiros, 1 cozinheiro e uma única mulher estava empregada, como doméstica28. Em 1912, a tendência profissional continuava sendo o comércio, geralmente cantinas, ao qual 128 pessoas se dedicavam, e a construção civil, que empre­gava 132 trabalhadores, dos quais 119 eram carpinteiros29. Embora, ao lado das mulheres africanas, fossem os principais fornecedores de hortícolas à cidade, somente 16 dedicavam-se a tal tarefa, número bem inferior ao que inicialmente pode ser suposto a partir da imagem que deles reteve a memó­ria popular, certamente influenciada por uma imprensa que pintava-os como agricultores imundos, que punham em permanente risco a salubri­dade pública. Os chinas, ao cultuarem sua religião, manterem sua língua, vestimenta, culinária e hábitos sociais próprios de sua cultura, foram marginalizados e, como os monhés e baneanes, vistos como servis, sujos e imundos e, apesar de hábeis artesãos, sempre foram alvo da perseguição da população branca laurentina, como veremos a seguir.

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